Mais uma vez fala-se de educação. Hoje é Nuno Crato, professor do Instituto Superior de Economia e Gestão, membro da direcção da Sociedade Portuguesa de Matemática e da Comissão para a Promoção do Ensino da Matemática, que no Público defende algumas medidas.
A seguir transcreve-se frases que achei mais relevantes de toda a entrevista.
«Não se pode culpar os alunos. Se eles não aprendem é porque nós, sociedade em geral e não só os professores, não estamos a funcionar como devíamos.»
«Há falhas que são mais ou menos evidentes, que estão assinaladas e que podem ser supridas. Uma delas, que é revelada pela comparação dos resultados obtidos no 1º e no 2º ciclo, é o grande desnível existente entre as duas etapas de estudo.»
«São fracas a Matemática como estou convencido que serão fracas em quase tudo. As pessoas falam da Matemática porque é mais visível. Haverá falhas em Matemática, História, Português, Geografia... Simplesmente, a Matemática é um barómetro do estado do ensino mais rigoroso que outros, porque revela melhor as deficiências do ensino do que as outras disciplinas. Isso explica-se por duas ou três características. Primeiro, é mais cumulativa; é muito difícil recuperar-se sem ter as bases: se o aluno não sabe somar fracções, a seguir vai ter mais dificuldade com os polinómios. Segunda agravante: em Matemática, as respostas estão habitualmente certas ou erradas, pelo que é muito fácil as notas serem muito boas ou muito más.»
«Um problema fundamental é que não existem exames nacionais. A única altura em que são feitos é no 12º ano. É complicado saber o que cada um está a fazer bem ou mal se não existe nenhum exame nacional.»
«As actuais provas de aferição não dizem o que cada aluno sabe. É preciso algo mais do que exames do 9º ano. Será no 6º, será no 4º, não sei, mas estou convencido que é preciso criar algo mais.»
«Os programas mudaram demasiadas vezes sem avaliação do que foi feito. Aquilo que é necessário, que é saber quais as práticas, programas e orientações que têm sucesso, quais os que não têm, isso não pode ser estudado ainda em Portugal. Não tem havido uma estabilidade educativa que permita fazer essa análise.»
«Há uma lei de 1992, que nunca foi cumprida, que diz que os manuais devem ser avaliados, mas que é tão complicada e tem coisas tão absurdas que nunca foi posta em prática. Defendo que o ministério, ou outras entidades que disso fossem encarregues, faça uma avaliação dos manuais existentes. Não seria vinculativa, mas indicaria aos professores a opinião de alguns pessoas idóneas sobre os livros escolares.»
«Há a ideia de que as ciências e a Matemática são mais difíceis. Os estudantes habituaram-se a que seja socialmente aceitável não gostar e ser mau a Matemática. Se se ouvir na televisão: "Eu de Matemática não sei nada, percebo perfeitamente que os estudantes tenham maus resultados", isso passa habitualmente sem condenação. Imagine o que seria se essas pessoas dissessem na televisão: "Português, que horror! Eu não sei falar bem português, eu não sei escrever português..."»
«Todo o medo em relação à Matemática e às ciências é derivado do seu desconhecimento e do facto de as pessoas não terem conseguido ter uma formação razoável que as fizesse gostar dessas disciplinas, pois elas são tão bonitas como o português ou as artes plásticas.»
«Acho que as universidades estão também numa encruzilhada: por um lado têm menos candidatos e, por outro, os candidatos que têm aparecem com pior formação. Se não os aceitam ficam vazias e vão à falência. Acho que deviam reagir a isto de uma maneira positiva, fazendo cadeiras preparatórias, com o objectivo de acompanhar alunos que vêm mal preparados. As universidades têm-se recusado a fazê-lo, quando esta é uma solução óbvia e que permite evitar o desperdício de recursos.»
«A situação da formação de professores é má. A formação contínua não funciona. Persistem as acções tipo "tapetes de Arraiolos" que dão créditos para a progressão na carreira, mesmo que se trate de docentes de Matemática. Quanto à formação inicial de professores, é boa nuns casos e má noutros. O que é muito grave para o ensino básico e secundário é que a entrada na carreira seja feita apenas com base na nota final do curso. E esta é da responsabilidade das escolas. Resultado: há instituições que formam alunos que saem com 18 valores e que estão muito mais mal preparados do que outros que têm média de 12. E os que saem com 18 passam à frente.»
«Julgo que só há uma forma moderna de resolver o problema. Há a antiga, salazarenta, que é mandar os inspectores às escolas ver o que se passa . E há a moderna. O empregador dessas pessoas, que é o Estado, faz um exame de entrada e pergunta ao professor de Português: em que ano nasceu Camões, foi no século XVIII ou no XVI? Não sabe isto, não entra. Ou quanto é que é um terço mais um quarto? Um futuro professor de Matemática tem de saber responder.
Estou a caricaturar, mas a ideia é esta: o empregador deve fazer um exame às capacidades científicas do candidato a professor. Uma instituição que formasse 200 pessoas com 18 valores e em que nenhuma conseguisse entrar na carreira ver-se-ia assim obrigada a reformular os seus critérios.»
O problema é complicado mas, tem-se de diagnosticá-lo convenientemente e tomar as medidas certas, para resolver um dos problemas mais prementes da sociedade portuguesa.
Não haverá nenhum “crânio” no Estado que entenda a urgência em resolver esta questão?
Esse senhor conhecerá a qualidade dos inspectores?
Há inspectores que já defenderam todo o tipo de pedagogias... sempre sincera e empenhadamente!
Um abraço,
Francisco Nunes
Francisco, pelo que eu percebi ele não defendia a variante inspectores. Referiu sim a moda antiga e salazarenta dos inspectores. Penso que ele defendia uma via moderna: «E há a moderna. O empregador dessas pessoas, que é o Estado, faz um exame de entrada e pergunta ao professor de Português: em que ano nasceu Camões, foi no século XVIII ou no XVI? Não sabe isto, não entra. Ou quanto é que é um terço mais um quarto? Um futuro professor de Matemática tem de saber responder.
Estou a caricaturar, mas a ideia é esta: o empregador deve fazer um exame às capacidades científicas do candidato a professor. Uma instituição que formasse 200 pessoas com 18 valores e em que nenhuma conseguisse entrar na carreira ver-se-ia assim obrigada a reformular os seus critérios.»
Os docentes culparem a sociedade pela má qualidade do ensino é excessivo. É verdade que essa mesma sociedade através das associações de pais deveria ser mais participativa nas questões que se prendem com a educação dos seus filhos, mas sobretudo a responsabilidade é principalmente dos docentes, não óbviamente em relação aos programas que pelos vistos não são sequer consultados, mas em relação ao seu empenhamento profissional. Normalmente aqueles que mais vocacionados se sentem na profissição melhor se empenham em leccionar e conseguem tirar partido disso através do aproveitamento escolar que os seus alunos acabam por ter. Aqueles que andam pelos estabelecimentos de ensino motivados apenas e só pela manutenção do
emprego e o recebimento do ordenado ao fim do mês, óbviamente os seus alunos acabam por ser as
vítimas da sua pouca vocação ou eventual desmotivação. Claro que no meio disto tudo o Ministério é o principal responsável porque não
realiza uma política séria no âmbito da educação.
E como não saímos disto o resultado vê-se. Cada vez mais insucesso escolar e abandono por parte dos jovens que nalguns casos nem o 9º. ano chegam
a concluir.
Raul, não tenho a certeza o que o Nuno Crato queria dizer com a culpa também é da sociedade.
Mas posso sugerir várias hipóteses: vão para professores muita gente que não arranjando colocação noutro lado, vêem o ensino, o último recurso para ganhar a vida. Sem apetência para o ensino a maioria deles nunca será um bom professor.
As escolas vivem isoladas da sociedade. Os maioria dos pais só vai à escola quando há grandes problemas com os filhos – alguns nunca vão. O poder local, as empresas, os agentes locais vivem de costas voltadas para a escola. A sociedade queixa-se do ensino, mas ninguém está disposta a colaborar na resolução do problema.
O Ministério da Educação e as estruturas que gerem o ensino não têm regras eficientes para gerir a qualidade do ensino, tanto a nível docente, como a nível pedagógico ou ao nível dos manuais escolares. Os edifícios e o apetrechamento das escolas é o que se sabe.
Se o Nuno com “sociedade” se queria referir a estas questões então eu estou de acordo com ele. É evidente que em todo o processo os professores também têm a sua quota parte de culpa. Penso que há muita gente com culpas no cartório. Em último caso, todos nós somos culpados, porque pactuamos com esta situação.
Mas o mais importante neste momento, não é encontrar culpados, mas resolver o problema.